Sexta-feira, Setembro 10, 2004

“Crónica do Dou-to Provedor” 5

Que grande alegria poder regressar finalmente ao vosso contacto! Sobretudo porque eu sei que nem sempre é fácil, no pântano de desinformação em que se transformou o jornalismo actual, perceber quais são os órgãos de comunicação que são sérios e credíveis. Para vos ajudar, deixo-vos já uma pista muito simples: geralmente, esses não oferecem serviços de jantar ou dominós como brindes! Nem contratam provedores como eu!
Mas passemos aos mails a que respondi esta semana:


Querido Provedor,
Venho pedir-lhe que interceda junto de ZecaNelito para reparar uma grave injustiça: nem uma única vez este blog se referiu a mim ou ao nascimento do meu filho! Ora, tive eu tanto trabalho em escolher um dador de esperma em condições para, assim, poder provar a toda a gente que sou homem, e agora há um blog que boicota o meu esforço? Não pode ser!
Cláudio Ramos, Alguidares de Baixo


Caro Cláudio, parece-me que está a cometer uma injustiça... eu sei que, com toda a sua actividade de apresentador/comentador/fofoqueiro, lhe sobra pouco tempo para coisas como ler a imprensa ou, sei lá, trabalhar... mas, com um pouco mais de atenção, teria verificado que este blog já se referiu a si por mais do que uma vez. Posso garantir-lhe que, de cada vez que a expressão “aborto” foi usada, foi consigo no pensamento.


Caro Professor,
É com um grande aperto no coração, e os pés em cima de um banco para conseguir chegar à secretária, que lhe escrevo.
E faço-o porque há uma coisa que me perturba profundamente: que suposto jornalismo é esse que muitas vezes se apresenta, em que há um protagonista que diz uma coisa e outro que diz outra completamente diferente? Mas para onde pretende o jornalismo caminhar? Como é que um jornalista consegue escrever uma notícia quando as pessoas não contam todas a mesma história?
Adérito Truz, Cimenteira de Souselas


Amigo Adérito, agradeço a sua carta, pedia-lhe apenas que, da próxima vez, não fizesse uma letra tão miudinha!
Em relação à sua pergunta, eu tinha uma resposta muito boa para lhe dar... infelizmente, essa resposta estava num documentário sobre o Bernard Pivot que eu tinha gravado numa K7 Vídeo Aberrantes (já disponíveis na ZecaNeloja). Degraçadamente e por engano, acabei por gravar por cima umas filmagens minhas em que eu entrava e saía com o meu carro da garagem, ora com música, ora sem música, ora com som, ora sem som! Um filme muito interessante e inovador! Ainda assim, lembro-me de algo que o meu amigo Bernard dizia nesse documentário: «Foi aqui que pediram uma pizza com anchovas?»... ou talvez fosse o rapaz da Telepizza que apareceu quando eu estava a filmar...


Sr. Doutor,
Apesar de eu estar em silêncio devido à grande fragilidade emocional que sinto neste momento (e aos compromissos de exclusividade que assumi com a editora do meu livro...), não posso deixar de lhe pedir que exerça o seu poder de influência para, através deste blog, interceder junto do Tribunal a fim de que os jornalistas possam assistir ao meu julgamento. Explico-lhe porquê: é que eu estou habituado a chorar em frente das câmaras, e faço-o sem grandes dificuldades. No entanto, sem elas, receio não conseguir verter uma única lágrima, arruinando assim grande parte da minha estratégia de defesa.
Carlos Cruz, Lisboa


Caro Carlos, o pedido que me faz levou-me a indagar junto do ZecaNelito da sua sensibilidade para a questão da presença de jornalistas no julgamento do processo Casa Pia. Depois de me lembrar que sensibilidade é coisa que o Zeca nunca teve nem nunca terá, resolvi pedir-lhe apenas a opinião. Aqui está ela: «Pessoalmente, não gosto de ver homens a chorar!»
Admito que eu também não. Particularmente desde aquela altura em que dei pelo Serge Tisseron lavado em lágrimas, verdadeiramente desesperado, gritando: «Não! Não é possível! Como é que ele me encontrou aqui?» Não sei bem a quem é que ele se estava referir, mas aquela imagem de sofrimento intenso persegue-me até hoje...


Caríssimo Provedor,
É uma vergonha que neste blog, que se arroga o mérito de apresentar entrevistas com as grandes figuras da actualidade, não tenha ainda aparecido a maior figura deste país de feitos gloriosos. Falo, é claro, do herdeiro da Coroa portuguesa, de Sua Alteza Real, D. Nuno da Câmara Pereira! Já é altura de falar de valores grandiosos como os que só uma Monarquia pode garantir: a possibilidade de o chefe de Estado ter 10 anos, a não interrupção das férias para ir votar, a ideia de que ainda havemos de ser salvos por um puto com uns séculos valentes em cima que desapareceu no meio do nevoeiro em Marrocos (o que pode querer dizer que ele, quando regressar, a primeira coisa que vai dizer é «Qué frô?») e os fados sobre cavalos com selas muito bonitas. Com tanto desprezo por estes valores, até parece que vivemos numa República!
Lento Jano, Vila Viçosa


Amigo Jano, na verdade, o ZecaNelito contou-me que já se lembrou de entrevistar o Nuno da Câmara Pereira... mas como depois optou por “Figura Da Semana” para mote da entrevista semanal, em vez de “Cromo Da Semana”, nunca mais pensou nisso.
Pessoalmente, acho que tal entrevista teria todo o interesse, uma vez que, depois de contestar a legitimidade de D. Duarte de Bragança como herdeiro do trono português, esse membro da infindável família Câmara Pereira já contestou também a designação do Pauleta para capitão da Selecção Nacional, a indicação do José Milhazes para comentador do massacre na escola de Beslan, a escolha do Kinas para mascote do Euro 2004 e o direito do José Cid a fazer os anúncios do Ice Tea.
Sô Doutor Aberrantes