“Crónica da Guerra” 1
A crónica do intrépido e sonolento repórter RicAlex, a partir dos locais onde os conflitos se sucedem e só poupam os mais destemidos… everything’s gonna be alright!
Foi de carro que atravessámos a fronteira, e a todo o momento a tensão podia ler-se nas caras destes dois “soldados da moral”, como gostam que se lhes refiram, com quem viajo. Sabem que a sua missão é ultra-secreta, e que um mero indício de que ela está em marcha pode deitar tudo a perder. Se ao menos eu não tivesse tanto sono, poderia descrever com muito mais exactidão este cenário.
Os nossos dois protagonistas conhecem bem o local para onde se dirigem, já lá estiveram muitas vezes, e, quando lá chegam, são tratados pelo primeiro nome. No entanto, cada vez é como a primeira. «O que é preciso é que não pércamos de vista o objectivo final, prontos», diz o homem, enquanto bebe um copo com um “camarada de armas”, que viajara para o mesmo destino sem que se houvessem cruzado. Ao mesmo tempo, as mulheres levam já a cabo a operação que ali os trouxera aos quatro. Eu aproveito, é claro, para tirar uma soneca no sofá!
Mas o que fazem quatro portugueses em terras de Espanha, assim, incógnitos? Nuno responde: «Lutamos para que se mantenha-se, prontos, os valores em que se acredita-se. Agora tire as suas inalações!»
Eu próprio me interrogo o que faço aqui. E maldigo a hora em que adormeci na reunião de redacção e fiquei com este trabalho de que todos fugiram. Já quando foi da Bósnia e do Afeganistão foi a mesma coisa!
Enquanto aguarda, Nuno recebe uma chamada do quartel-general. Apesar do evidente esforço que faz para não ser ouvido, ainda consigo escutar: «Não importam as forças militares que se tem que mandar-se! Não podemos deixar que o inimigo entre, prontos, nas nossas águas! Deus sabe os perigos que daí poderiam resultarem!»
A determinada altura, ambas as mulheres são trazidas em maca, e eu próprio desejo ter um sítio confortável para poder fazer a minha reportagem na horizontal. Apesar das marcas evidentes de um longo e penoso esforço na cara das duas “guerreiras pelos bons-costumes”, todos parecem contentes com o desfecho da acção levada a cabo: «Desta já nos safámos-se», ouve-se a Nuno. Dir-se-ia que todos desejavam aquele final. Até um repórter experiente em cenários de guerra, como eu, não pode deixar de se surpreender com a insanidade deste momento. E de passar mais uns cinco minutos pelas brasas, também!
Nuno desabafa finalmente, aparentemente liberto dos grilhões que lhe tolhiam as palavras até aí: «Fosga-se! Nunca vir fazer um aborto a Badajoz me deu tanto trabalho! Isto de se ser-se Secretário de Estado tem cá com cada coisa, prontos!»
RicAlex

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